terça-feira, 20 de novembro de 2012

Como vender alma ao diabo

Existe sempre alguém procurando por uma forma fácil de obter mais prazer, riqueza, fama ou poder. E isto parece que a cada dia se torna cada vez mais comum, especialmente numa sociedade onde existem tantos prazeres para serem desfrutados e tão pouco tempo para fazê-lo.

Mas esta forma fácil invariavelmente implica em uma conduta que extrapola os limites da ética e da moral, e mais ainda, dos valores espirituais mínimos que se espera de um ser humano decente e capaz de conviver de maneira harmônica em sociedade.

Todos conhecem inúmeros relatos de as pessoas que foram capazes de fazer coisas repugnantes e desprezíveis para alcançar rapidamente aquilo que mais desejavam.

Aparentemente desde os tempos da Idade Média, é dito que as pessoas que adotam este tipo de conduta realizam, de forma real ou simbólica, um Pacto com o Diabo, onde um sujeito vende sua alma a Satanás em troca de algum benefício.

Dizemos que um pacto pode ser real ou simbólico porque existem muitos relatos em livros de Magia sobre a realização efetiva de tais acordos, que podem acontecer não somente com entidades das sombras, mas também com seres de luz, como Anjos, Mestres e Deuses.

Os gnósticos não rejeitam a possibilidade de realizar esta classe de contratos, mas geralmente enfatizam que os pactos simbólicos com o demônio são mais comuns, inclusive sendo realizados por pessoas que desconhecem as artes mágicas, em situações ordinárias da vida comum.

Para os gnósticos, os demônios correspondem às forças negativas da alma de todo ser humano. Assim, sempre que um indivíduo cede à uma tentação qualquer, está “entregando” sua alma a tais forças, em troca de prazeres e sensações efêmeras, que o privam de sua consciência e o afastam de sua verdadeira identidade espiritual.

Mesmo assim, não é possível ignorar a grande quantidade de relatos a respeito de acordos tidos como reais, os quais são realizados mediante certos procedimentos quase uniformes, cujas características principais e desdobramentos lendários apresentamos a seguir.

Como Acontecem os Pactos?

Em geral, o pacto com o diabo acontece entre a pessoa e o próprio Satã, ou algum outro demônio que seja poderoso o suficiente para satisfazer seus desejos. Por um lado, a pessoa oferece sua alma, enquanto o diabo promete realizar os favores solicitados.

Tais favores costumam ser muito variados, e os relatos e lendas mencionam juventude, conhecimento, riqueza, poder e prazeres eróticos. Contudo, há também o caso de pessoas que fazem este tipo de pacto e em troca apenas reconhecem que Satã é o seu senhor, o que para muitos é o mesmo que vender a alma.

Algumas vezes o diabo exige que a pessoa mate crianças, ou as consagre às forças do mal no momento de seu nascimento. Além disso, pode ser exigida a participação em rituais maléficos, a realização de relações sexuais com espíritos demoníacos, de modo a gerar crianças demoníacas.

Os pactos podem ser orais ou escritos. Os pactos orais são realizados mediante invocações, conjurações ou rituais para atrair o demônio. Uma vez que a criatura abismal se faz presente, o invocador verbalmente solicita o favor desejado e oferece em troca a sua alma.

Os pactos escritos começam da mesma forma que os orais, ou seja, com invocações, conjurações e rituais, mas incluem uma etapa onde o invocador escreve o que deseja e assina com sangue em um contrato ou no próprio Livro Vermelho de Satã.

Durante a Idade Média foram desenvolvidos tratados de demonologia, que apresentam listas de demônios com suas atribuições, de modo a ajudar a pessoa a escolher o demônio que melhor poderia satisfazer seus desejos.

Estes tratados também traziam as assinaturas ou os selos dos demônios, além de tabelas contendo os meses do ano, os dias da semana e as horas do dia em que seria mais conveniente invocar a criatura das trevas.

Pessoas que Contrataram os Serviços do Demônio

O pacto com o demônio é algo tão comum na mentalidade popular e na literatura, que já foi catalogado como um motivo temático a ser explorado por escritores de toda espécie, inclusive roteiristas de cinema nos tempos modernos.

Um dos relatos que podem ser encontrados com mais frequência é o do sujeito que perde toda a sua fortuna e, completamente desesperado, está disposto a fazer qualquer coisa para reaver a fortuna, inclusive negociar com o capeta.

Gilles de Rais era um nobre britânico considerado muito inteligente, corajoso e atraente, que ganhou considerável fortuna e poder com a morte de seu pai, quando Gilles ainda tinha apenas 20 anos de idade.

De modo a manter seu status e conviver com os iguais de sua classe social e econômica, Gilles acabou depredando uma considerável soma de riquezas. Isso o levou ao desespero, já que sua fortuna era herdada, e ele não tinha meios de reaver seu patrimônio.

Contas as lendas que, em absoluto desespero, Gilles começou a realizar experimentos com as ciências ocultas, sob a orientação do florentino Francesco Prelati, que prometeu ao rapaz ser possível reaver suas riquezas se ele sacrificasse crianças a um demônio chamado Barão.

Gilles fez o pacto com Barão e, no curso de sua matança desenfreada, acabou estuprando, torturando e matando cerca de 200 crianças inocentes. Era o século XV, e depois de ser julgado e condenado, Gilles foi executado por enforcamento e queimado em uma fogueira.

Ao contrário do supostamente ocorrido com Gilles de Rais, há relatos de pactos feitos por pessoas simples, que desejavam enriquecer e, de forma misteriosa, conseguiram, fazendo com que as pessoas próximas creditassem a fortuna acumulada de maneira desconhecida a um acordo com o diabo.

Enriquecer misteriosamente pode fazer com que uma pessoa vire alvo de especulações e protagonize lendas demoníacas. Este é o caso de Jonathan Moulton, que de simples marceneiro, pai de 11 filhos, tornou-se uma das pessoas mais ricas de Nova Hampshire.

No ano de 1769, a mansão que Moulton construiu em um pequeno povoado pobre e de mentalidade conservadora, sofreu um incêndio misterioso e queimou por completo. Para os fanáticos locais, o diabo tinha vindo punir Moulton por uma trapaça.

Segundo a lenda, o diabo, em troca da alma de Moulton, enchia suas botas de de ouro até a borda todos os meses. Mas Moulton tinha bolado um plano para enganar Satanás. Ele colocou sua bota sem sola sobre um buraco muito fundo, e o diabo desconfiou que a quantidade de ouro exigida para encher o calçado era grande demais.

Então, el resolveu se vingar incendiando e matando o trapaceiro. Correram boatos que o corpo de Moulton desapareceu do caixão e foi substituído por moedas de ouro, nas quais estava gravada a figura do diabo. De qualquer forma, Moulton foi enterrado sem identificação, e o paradeiro do caixão ainda é desconhecido.

Muito parecidas com este caso de enriquecimento às custas da ajuda demoníaca são as histórias de sujeitos que, em virtude de sua excelência em algum tipo de atividade, são vistos como pessoas trocaram suas almas por poderes mágicos e habilidades sobre-humanas.

Como o caso do violinista Niccolò Paganini já muito conhecido, vamos conhecer a história de Robert Johnson, um dos maiores músicos da história do blues, considerado o 5º melhor guitarrista de todos os tempos pela conceituada revista Rolling Stone.

A lenda que se construiu em torno da habilidade técnica e musical de Johnson conta que ele queria ser um dos melhores guitarristas de sua época. Alguém o teria instruído a ir com sua guitarra a uma encruzilhada próxima a uma plantação de algodão.

Lá, Johnson encontrou o Diabo em pessoa. O ser das trevas pegou sua guitarra e a afinou, o que imediatamente conferiu a Johnson a maestria do instrumento. Alguns afirmam que somente assim era possível explicar naquela época como um negro dominava tão bem a guitarra.

O próprio Robert Johnson, ao tomar conhecimento destes rumores, nada fez para desmenti-los, chegando até a encorajar a sua difusão, afirmando que tinha mesmo feito um pacto com o príncipe das trevas.

Ele gravou 6 discos antes de morrer muito jovem, aos 27 anos de idade. Sua morte é bastante controversa, e a versão principal é que Johnson foi pego flertando com uma mulher casada, que ofereceu a ele um copo de uísque que tinha sido envenenado pelo marido traído. Ainda assim, muitos acreditam que esta foi apenas a forma sedutora que o diabo encontrou para cobrar a dívida.

Finalmente, para que não fique a impressão que, assim como os bancos, o diabo sempre acaba levando a melhor sobre suas vítimas, é oportuno conhecer a história de São Teófilo, também chamado de Teófilo o Penitente, em referência a forma como ele se livrou de uma dívida quase tão cruel como aquela dos cartões de crédito.

Teófilo de Adana era um clérigo católico que viveu no século VI, e que teria feito um pacto com o diabo para conseguir uma posição dentro da Igreja. Esta é a mais antiga história conhecida a respeito de pactos com Satanás.

Sua história começa quando ele ainda era um diácono de Adana e foi eleito de forma unânime para ser Bispo. Contudo, para exercitar sua humildade, Teófilo resolveu não aceitar o cargo, o que fez com que outra pessoa fosse eleita em seu lugar.

Como se fosse um castigo pelo excesso de virtude, o novo Bispo tirou Teófilo de sua posição de diácono, o que o fez se arrepender amargamente de sua humildade e, em seguida, procurar por um mago que pudesse colocá-lo em contato com Satã.

O encontro aconteceu, e quando Teófilo pediu para si o cargo de Bispo que tinha há pouco renunciado, o Diabo exigiu em troca que ele renunciasse ao Cristo e à Virgem Maria, em um contrato escrito com seu próprio sangue. Teófilo aceitou e o Diabo fez sua parte.

Anos mais tarde, o Bispo temia por sua alma. Um dia, resolver se arrepender e orar à Virgem pedindo perdão. Após quarenta dias de jejum, a própria Virgem apareceu para dar uma bronca no arrependido. Teófilo implorou por perdão e a Virgem prometeu interceder junto à Deus.

Como qualquer menino arteiro que teme as consequências de uma travessura, Teófilo aproveitou para jejuar mais trinta dias, ao fim dos quais a Virgem apareceu novamente, desta vez com a garantia de sua absolvição.

No entanto, Satanás não queria abrir mão de uma alma tão valiosa e, para assustá-lo, depositou o contrato em seu peito para que visse assim que acordasse pela manhã. Teófilo pegou o contrato e levou ao Bispo legítimo, confessando o que tinha feito. O Bispo queimou o documento, ao que imediatamente Teófilo morreu com um sorriso no rosto, contente por ter se livrado do peso daquele sombrio compromisso.

Nenhum comentário:

Postar um comentário